Exclusivo na Revista SuperVarejo: Para Milton Dallari, economia só engrena em 2020

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A edição de julho da Revista SuperVarejo traz uma entrevista exclusiva com José Milton Dallari Soares, que atuou como assessor especial na elaboração do Plano Real, na década de 1990, a convite do então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.

Dallari fala de economia, urgência na aprovação das reformas e questões relacionadas ao setor supermercadista. Confira:

O que esperar do Brasil neste segundo semestre depois do festival de delações e crises em todos os setores?

Eu acho que, a hora que passar essa confusão, volta um crescimento moderado. Não tenho mais dúvidas. Em 2019, 2020 nós estaremos em outra situação, com certeza.

Então, não é nem mais em 2018?

O ano de 2018 é um pouco mais complexo, porque o déficit público ainda é grande, não dá para diminuir tão rápido. A gente vai ter um caminho a percorrer, uma relativa dificuldade. Com o aumento do déficit, macroeconomicamente você não vai conseguir as melhores condições para registrar um crescimento firme em 2018. Então, teremos um avanço modestíssimo em 2018, melhor em 2019 para alavancar

Então, no seu ponto de vista, a reforma política é essencial?

É a mãe de todas as reformas. Pode ser que gire ainda neste ano, para as eleições do ano que vem. Então, deveriam fazer um esforço muito grande para que, antes do mês de outubro, tenhamos a reforma política já definida. Vejo dificuldade? Vejo. Mas se não conseguirmos para as próximas eleições, pelo menos para a seguinte, de prefeito, em 2020.

E a reforma previdenciária?

Ela é essencial, fundamental, uma questão de matemática atuarial. Não faz mais sentido a mulher viver 80 anos e o homem 72, e nós estarmos com a tabela demográfica de 2000. Em 2017, as coisas mudaram, a medicina evoluiu, as pessoas vivem cada vez mais, e nós temos que fazer atualização do cálculo atuarial. Senão, não   teremos, efetivamente, caixa para quitar as aposentadorias na próxima década. As novas gerações vão ter muita dificuldade, se não corrigimos agora a Previdência.

Sem a reforma da previdência, o Brasil quebra?

O Brasil tem problemas seríssimos; sem a reforma vão aumentar muito mais. Se você raciocinar que a Previdência hoje, em nível europeu, que já é uma região envelhecida, consome de 8,5% a 9% do PIB, a nossa consome 12% do PIB brasileiro e caminha para a casa dos 14%, 15%. A conta não fecha sem a reforma da previdência.

Como o senhor, um dos idealizadores do Plano Real e “Xerife dos Preços”, vê a inflação atual menor que as projeções dos economistas e até do próprio governo?

Felizmente, o governo resolveu adotar como uma das premissas a redução do processo inflacionário. Por quê? Porque é o maior tributo em cima do pessoal de baixa renda. Ele paga igualmente um tributo como paga o presidente de um banco. É irracional mantermos esse sistema tributário como está, que gera um aumento substancial nos preços.

Como deve se comportar a inflação nos próximos 12 meses?

Espero uma estabilidade entre 3,5% e 4,5%. Sinto que a inflação tem condições de manter esse nível nos próximos anos, fato bem interessante para o Brasil.

No segmento dos supermercados, como pode ser implementada a governança corporativa?

As cadeias médias de supermercados precisam adotar a governança corporativa, porque a maioria delas é formada por empresas familiares, marcada por todos os conflitos característicos desse grupo. Isso existe em qualquer família do mundo, as brasileiras não são diferentes, principalmente quando começam a entrar os agregados, com valores e formas distintas de pensar. No caso, seriam criados um conselho de administração e um conselho familiar diferente do anterior. Após a solução dos conflitos familiares, um integrante desse   conselho faria parte do administrativo.

Um parente que não é do ramo consegue tocar uma loja?

Acho bem difícil. O que não pode é um filho despreparado assumir funções estratégicas na empresa. Se você possui um supermercado e uma filha que gosta de teatro, deixe-a nos tablados. O mesmo acontece com o filho que quer jogar futebol. A vontade deles deve ser sempre respeitada. Não adianta mantê-los em uma loja porque não vai dar certo. Ou seja, nós recomendamos que, desde a origem, o empresário prepare sua família com uma educação adequada. Aqueles que demonstrarem maior interesse pelo negócio poderão até ser instruídos para assumir as funções do pai, da mãe ou dos tios, por exemplo. O fato é que a educação é primordial nesse processo, sem dúvida alguma. Algumas entidades, como APAS, Abras e outras associações, oferecem cursos, feiras e viagens que têm o objetivo de aprimorar os conhecimentos dos comerciantes.

Qual a expectativa para o varejo?

Eu acho que os supermercados têm que se readequar aos novos tempos. Pensar seriamente nas novas tecnologias que estão chegando, como as etiquetas eletrônicas ou os self-checkouts. Donos, gerentes e funcionários precisam melhorar o sistema de gestão, participar de feiras, cursos, seminários. No supermercado, para se ter uma ideia, o preparo de um repositor de gôndola, que, teoricamente, seria uma coisa simples, leva de dois a três anos.

Um tempo tão longo, por quê?

Porque quando se descobre buraco nas gôndolas de uma loja, há rupturas. E se você pensar que a margem líquida de um supermercado hoje varia de 2,8% a 3,2%, uma ruptura não corrigida gera uma perda de 1%. Então, sem o problema, a margem certamente será maior.

Proporcionar uma experiência ao consumidor nos supermercados já foi mais fácil? Por quê?

A concorrência cresceu em todos os sentidos. Tem cliente que não gosta de ir às compras, resolve tudo pelo computador. A competição entre as redes, com seus vários chamarizes, dificulta um bom tíquete médio, assim como a falta de tempo do cliente, a facilidade de pesquisar preços no celular e nas lojas de vizinhança. Mas os empresários dispõem de algumas ferramentas de Geomarketing e de Neuromarketing que podem ajudá-los a conquistar mais consumidores, oferecendo uma experiência interessante e assim aumentar os lucros.

Diante desse cenário, quais seriam suas dicas para o supermercadista?

Se tiver condições financeiras, aproveite o momento para investir. Na crise, prepare-se para os novos tempos.

Entrevista na íntegra: http://www.supervarejo.com.br/milton-dallari-economia-so-engrena-em-2020-exclusivo/


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