Cidadania e Gestão: Tecnologia pode ajudar o Brasil a dar um salto na educação


Um exemplo de uma escola modesta de Pernambuco mostra o poder que tablets e internet rápida, junto com novos modelos pedagógicos, têm no estímulo ao saber

É quase impossível chegar à vila de Oiteiro, no interior de Pernambuco, sem a indicação de uma pessoa que conheça o caminho. A estrada de terra de 10 quilômetros que liga a comunidade de 698 moradores ao centro do município de Vitória de Santo Antão, a 1 hora de Recife, não tem sinalização. A via também não aparece nos aplicativos de mapas e no GPS. E o sinal de celular para de funcionar nos primeiros quilômetros. Os motoristas são obrigados a dirigir devagar por causa dos buracos. Nos dias de chuva, só as caminhonetes e os veículos pesados conseguem vencer a lama. De manhã e à tarde, é comum ver o movimento de carretas transportando alface, cebolinha e outras hortaliças.

A maioria dos habitantes formada por trabalhadores rurais ou agricultores que produzem em pequenas hortas. Cada pé de alface costuma ser vendido por 8 centavos. A agricultora Daniele do Nascimento, de 25 anos, é uma das moradoras. Ela vive com os três filhos — de 11, 9 e 6 anos —, a mãe, Célia, e um irmão de 10 anos. Todos os dias, as crianças se levantam ao amanhecer, ajudam a cuidar da horta da família e, pouco antes das 7 da manhã, atravessam a vila para estudar na única escola de Oiteiro, a Manoel Domingos de Melo, que oferece o ensino fundamental.

A vida rural e a infraestrutura de baixa qualidade contrastam com o que os visitantes encontram dentro da escola. Na Manoel Domingos de Melo, todos os 153 alunos, do 1o ao 5o ano, têm aulas usando tablets e uma internet de alta velocidade, de 40 megabits por segundo. Nas grandes capitais brasileiras, é fácil contratar uma banda larga igual ou mais veloz do que essa. Mas internet rápida ainda é uma raridade nas escolas brasileiras. Entre as escolas urbanas — incluindo as particulares —, somente 7% têm uma conexão parecida.

Já nas rurais, como na Manoel Domingos, ter uma conexão veloz é ainda mais excepcional. Isso só foi possível porque a operadora de telefonia Vivo e a fabricante de equipamentos de telecomunicações Qualcomm instalaram em 2016 uma estação de celular 4G na escola. Com base nas estatísticas, os especialistas estimam que ela seja a escola pública com a melhor conexão de internet por aluno do país.

Vitória de Santo Antão, um município de 111 000 habitantes, é um retrato dos problemas da educação pública Brasil afora. A prefeitura depende dos repasses do governo federal, e todo o orçamento da Secretaria da Educação, de 8 milhões de reais por ano, é usado para pagar os salários de professores e funcionários, segundo o secretário Jarbas Dourado. O resultado é que não há recursos para a compra de equipamentos. Das 63 escolas municipais, que têm 17 000 estudantes, só 15 têm laboratórios de informática, e a velocidade da conexão não passa de 2 Mbps na maioria delas. A situação é parecida em boa parte das escolas brasileiras. Sem a infraestrutura adequada, os professores ficam de mãos atadas. Não há como promover atividades com os alunos usando internet, aplicativos e computadores.

Numa pesquisa pioneira com 4.000 professores da rede pública sobre o uso da tecnologia em sala de aula no Brasil, feita pela ONG Todos Pela Educação em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a maioria dos educadores aponta que suas escolas não têm equipamentos suficientes. A velocidade da internet também não é adequada, os computadores estão desatualizados ou com defeito e faltam materiais digitais pedagógicos. Dos professores, 45% disseram que usariam a tecnologia com mais frequência se houvesse uma estrutura melhor, mesmo se isso aumentasse a carga de trabalho (já 54% dizem que só usariam mais a tecnologia se a carga de trabalho não aumentasse).

“O professor tem de ser o elemento central de qualquer política pública para levar tecnologia para as escolas. Se ele percebe que a infraestrutura não é adequada ou que a tecnologia não vai facilitar seu trabalho, ele não vai utilizar as ferramentas”, diz Olavo Nogueira Filho, gerente de políticas educacionais da Todos Pela Educação. Maria Helena Guimarães de Castro, secretária executiva do Ministério da Educação, reconhece a situação. “Muitas vezes, os professores fazem cursos de capacitação’ mas não têm conectividade na escola. Os programas de formação continuada dos professores têm de andar juntos com uma melhora do acesso à tecnologia”, diz a secretária executiva. O governo federal prepara um programa para ampliar o acesso à internet nas escolas de educação básica, previsto para ser lançado ainda neste ano.

Leia a matéria na íntegra: https://exame.abril.com.br/revista-exame/tecnologia-pode-ajudar-o-brasil-a-dar-um-salto-na-educacao/.



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